VOTAR DE UMA CERTA MANEIRA

Publicado: maio 1, 2011 em THOUGHTS

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O  X e o branco

Continuamos teimosamente a seguir o caminho do carreirismo irreflectido, enfileirado e vendido. Cada um de nós já não tem memória das histórias dos nossos avós sobre senhas de racionamento em consequência de grandes convulsões sociais, tenham sido guerras mundiais ou lutas internas. Continuamos a gastar porque somos egoístas em relação à sociedade e muito católicos, o que nos  permite pedir desculpa pelas máximas culpas e assim procurar a absolvição dos disparates em que vivemos, das gulas, dos gastos, das mentiras, alienados da realidade que o poder temporal nos deixa.

Deixamos passar todos os dias uma oportunidade de exigir responsabilidades directas a quem colocou e coloca o País nesta miséria, sejam políticos, sejam banqueiros que pedem ajuda para alimentar mais os seus lucros e emprestar sem critério a quem não pode obviamente pagar isto, mais aquilo e aqueloutro, sejam companhias nacionais com lucros chorudos que impedem a livre e muito mais barata concorrência em produtos de comunicações e outros bens básicos para o nosso desenvolvimento social e cultural. Porquê pagar por igual se a responsabilidade não o é? Porque são os restos da classe média para baixo quem deve suportar os erros dos premiados administradores ou gestores que não só não fizeram aquilo para que foram nomeados, como o fizeram pior do que o seu contrato minimamente lhes pediria. Porventura existem aí cláusulas de despedimento com justa causa? A meu ver, as páginas centrais dos jornais que hoje trazem situações de insolvência deveriam ser preenchidas também com os haveres muito rapidamente ganhos por uma classe de gente que devia estar presa por dolo. E isto aplica-se desde antigos Primeiros-Ministros, Ministros, Secretários de Estado, boys de qualquer forma, gente que arranjou emprego por favor, como há quarenta anos atrás, e todos os  arrogantes que temos que aturar na parte da sociedade que não produz e não trabalha e continua impune e também não permite que pessoas com maior idade e experiência trabalhem, porque é necessário que os novos trabalhem. Estamos inquinados e o nosso sangue pior que o de uma dinastia purulenta.  Há uma série de gente que um dia não terá nada e neste momento poderia estar a servir qualquer lugar com competência. Há dias visitei um Museu que não cito nem situo e só digo que tem a ver com o sol nascente e constatei que a frente de gente que atende o público tem quase toda o nariz tão empinado que parece que querem fazer de nós estúpidos logo na compra dos bilhetes. São novos com todo o respeito para com os bem educados que nos espantam. A diferença para com os museus Europeus é abismal, porque os outros estão cheios de gente que é bem recebida e informada por quem lá trabalha com um sorriso. Ir a Caixa de Previdência ou às Finanças tratar de alguma coisa dá vontade de não ir mais. De facto, a vontade que temos enquanto cidadãos é a de não dever nada a ninguém se pudermos, ter dinheiro num Banco estrangeiro e por favor, Doutor, que seja só para os Médicos. Tenho saudades de quando trabalhava no estrangeiro porque era livre. Porque valia por mim e não era comparado por idade com alguns idiotas concorrentes ao mesmo posto. Porque não era o meu nome que valia, nem os conhecimentos da minha família, nem a desonestidade de se dizer de um partido para arranjar trabalho por conta de agitar uma bandeira.

Quando for votar vou ter sempre estes pensamentos comigo. NADA X BRANCO. Os partidos de esquerda que nunca se colocam como parte do problema sendo de cá continuam a usar e abusar de dois defeitos absolutos. Existe o Eles e o Nós. Esta tentativa de desmarcação vem desde antes do 25 de Abril. É histórica. Significa Os Eleitos e Os Trabalhadores e uma participação de agitação social clandestina na tentativa de organização da luta. Nos últimos anos, contudo, com assentos no parlamento e aspirações a condução de ideias novas, é no mínimo disparatado que se use da mesma linguagem e sobretudo que sejam sempre os mesmos a falar e os outros a bater palmas. Partidos que aspiram a dirigir opiniões e formar governo devem ter o que os Ingleses chamam Gabinete Sombra, ou seja, um grupo de peritos em áreas diferentes que se substituem em opinião ao Gabinete em exercício de funções, ou seja o Governo eleito. Que se acabe com o seguidismo mais uma vez.

Por fim constato que muitas cabeças desinteressadas no País se preocupam com soluções que caem em ouvidos moucos. Não existe vontade. Existe hipocrisia. Eu não posso contar com o meu País. Não posso contar com seriedade, honestidade e princípios. Não posso contar com a Democracia que me é apresentada hoje.

Dito isto, encontro-me sem um espelho político que me permita votar em consciência, e daí volto ao problema do X ou do branco.

Vou votar, se estiver no País, mas comigo ninguém conta, e mais, marcarei a minha posição com uma cruz sobre todos os que não valem a pena, aqueles em quem não me revejo. A esta altura já há vitórias. O jogo é sujo. Já tiveram muitos anos para provarem o que valem e quem são. Todos. Há quem possa argumentar que me demito da vida. Eu prefiro pensar que quem concorre a governante se demitiu há muito do seu papel na sociedade para passar a sanguessuga de uma feira de vaidades. Governos sim, mas com todos e não só com dois ou três, e obrigados a exercer com seriedade sob pena de acusação pública.

Compreendo muito bem o desapontamento dos capitães de Abril.

A Casa onde viveu o Zeca em Coimbra e a do Maia em Castelo de Vide estão ambas abandonadas. Uma tem um azulejo e a outra uma lápide.

António Cara D’Anjo

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Fígaro

Publicado: abril 30, 2011 em CATS

Adeus meu gatinho lindo.

Meu amigo, companheiro curioso das minhas pinturas na Holanda, rolinho quente de aconchego com o Inverno lá fora, branco como tu onde não eras preto.

Guardaram as tuas entranhas em vasos canopos

Enfaixaram a tua múmia num caixão muito bem pintado.

Duraste um dia, e anos de memórias conforme aqueles que

Da cátedra, sobre ti se fizeram trazendo o esquecimento

Como memória envergonhada de um sonho molhado

Intercalado na noite escura que hoje vivemos.

Foste um sonho que a realidade mordeu para acreditar,

Procurando os vasos canopos numa tumba no vale

Da democracia chamada liberdade para tudo o que não é

De uma viagem sem regresso nem mantimentos.

Tens o teu túmulo numa câmara que nunca será descoberta.

António Cara D’Anjo

CATS

Publicado: abril 13, 2011 em CATS, PHOTOS
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https://antoniocaradanjo.wordpress.com/

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Foto NBP                                 Foto Rui Mateus

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Foto Luís J Carvalho                                                                             Foto Pedro Efe

ANTÓNIO

CARA D’ANJO

Nascido em Lisboa em 1954, estudou no Liceu Normal de Pedro Nunes e frequentou o Curso de Escultura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Prémio de Revelação em Pintura pela Junta de Turismo da Costa do Sol em 1971.

Estreou-se no Teatro profissional em 1975 e no Cinema em 1976, respectivamente em “Do Teatro ao Cais do Sodré” e “O Príncipe com Orelhas de Burro”.

Fez parte dos Grupos de Teatro “Os Cómicos” e “A Barraca” e participou em produções independentes, quer como actor quer como artista plástico, quer como desenhador de luz.

Viajou em tournées e festivais de teatro pela Europa, África e Brasil.

Em 1982 mudou-se para Inglaterra onde trabalhou para a ONU na área das Organizações Internacionais até 1988.

No final dos anos 80, regressou a Portugal, tendo sido professor de ingles durante três anos.

Actualmente vive em Lisboa, continua o seu trabalho como actor e mantém a pintura como projecto paralelo, que nos últimos anos tem estendido até à Holanda.

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TEATRO

O Escorial, de Gelderode – Dir. Serge Farkas, 1971 ,LiceuNP.Nunes

A Noite dos Assassinos – Dir.Angel Facio, Os Cómicos, 1975

A Mandrágora – Dir. Ricardo Pais, Os Cómicos, 1976

Do Teatro ao Cais Sodré – Dir. Fernando Heitor, Os Cómicos, 1976

A Guarda – Dir. Osório Mateus, Os Cómicos, 1977

Matinée Magica – Dir. Ricardo Pais, Os Cómicos, 1977

O Conde Barão – Dir. Fernando Heitor, Os Cómicos, 1978

Saudades – Dir. Ricardo Pais, Casa da Comédia, 1978

Ao Qu’Isto Chegou – Dir. Augusto Boal, A Barraca, 1978

Zé do Telhado – Dir. Augusto Boal, A Barraca, 1979

D. João VI – Dir. Helder Costa, A Barraca, 1980

Preto no Branco – Dir. Helder Costa, A Barraca, 1981

Fernão Mentes? – Dir. Helder Costa, A Barraca, 1981

Street Scene – Dir. J. Wallenstein, John Maucieri, TNSC 1995

Viriatus – Dir. e Interpretação, Projecto Ágora, Instituto Camoes, 2002

POESIA

Atrás dos Tempos Tempos Vêm – A Barraca, 1982

Manta de Recados – Projecto CD, 2002

CINEMA

O Príncipe com Orelhas de Burro, de António Macedo, 1977, Génio, Carrasco, Preceptor

Antes a Sorte que tal Morte, J e F Matos Silva, 1978, Político

Kilas, O Mau da Fita, de J. Fonseca e Costa, 1979, FE

Sem Sombra de Pecado, de J. Fonseca e Costa, 1980, Manuel

Havanera, de Tony Verdaguer, 1991, Sheik

Wochenende Lissabon, de Gero Erhardt, 1992, Traficante

Terra estrangeira, Walter Carvalho, BR, 1994, Espanhol

Fado Majeur et Mineur, de Raoul Ruíz, 1994, Le Chauffeur

La Reine Margot, de Patrice Chéreau, 1994, FE

Le Cascadeur, de Alain M. Blanc, 1995, Commander Mendes

Le Grand Cirque, Commander Mendes

Les Têtes Couronées, para TV1, 1995, Police Maritime

O Prego, de João Maia, 1997, António

Porto Santo, de Vicente Jorge Silva, 1998, Polícia Maritimo

Mustang, SIC Filmes, 2000, Chefe de Oficina

Une Famille Formidable, Produções OFF, 2001

Lagardere, Animatografo II, W, 2003, Peintre

Julie chevalier de Maupin, Animatografo II, 2004, Chevalier

TELEVISÃO

A Banqueira do Povo – Walter Avancini – RTP, 1993, Médico

Sòzinhos em Casa – CCA, 1995, Canhão

Fala Comigo como a Chuva–T. Williams–Oliveira e Costa– RTP, 1996

Não Há Duas Sem Três – MMM, 1997, Mota Flores

Uma Casa em Fanicos – Dir Nicolau Breyner, Multicena, 1998

Esquadra de Polícia – Multicena, 1999, Manuel

A Lenda da Garça – NBP, 1999, Vicente Abreu

Cruzamentos – NBP, 1999

CONTINUAÇÃO TELEVISÃO

Jornalistas – T. G. Produções , 2000, Silva

Jardins Proibidos – NBP , 2000, Engenheiro

Crianças SOS – NBP, 2000, O violador

Bairro da Fonte – NBP, 2001, Dono do Bar

Ganância- NBP,2001

O Espírito da Lei – Jogo de Espelhos – Costa do Castelo Filmes, 2001, Psiquiatra

Uma Aventura no Verão – Screen TV, 2001, Diamantino

Anjo Selvagem – Fealmar , 2001

Inspector Max, Violência doméstica, 2004

O Esquema dos Diamantes, 2004

O Circo da Morte, 2005

Morangos com Açucar, 2006 1 episódio Fealmar

2007 1 episódio Fealmar

A minha Familia, SP Televisão, 2007

Feitiço de Amor, 2009

Lua Vermelha, SP Televisão, 2010

RÁDIO – NARRATIVAS DE CONTOS DE AUTORES AFRICANOS

DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

O Dia em que Explodiu Mbatabata – BBC, 1986

Patanhoca, O Cobreiro Apaixonado – BBC, 1986

As Mãos dos Pretos – BBC, 1987

A Última Narrativa do Vovô Kiala – BBC, 1987

Muxiluanda – BBC, 1987

Menos Um – BBC, 1988

Nhá Candinha – BBC, 1988

PUBLICIDADE

BMW, 1993

Intermarché, 1993

Institucional GALP, 1993

Farinhas Nacional, 1994

BBV, 1995

SKIP – Campanha Lever 1996/97 (7 filmes)

Telecel, 1998

Abraço, 1998

Renault Kangoo, 1998

Sony Play Station, 1999

Novis Empresas, 2000

WAP TMN -Aeroporto, 2000

BPI – Fotos, 2000

WC Pato – 2001

Vodafone, “Stepping Out”- Int., 2002

Super Bock, 2003

Rede 3, Suecia, 2003

Oliveira da Serra, 2006

Caixa Geral de Depositos,Aula de Desenho,2007

CABOVISÃO, UPS!, 2009

MÚSICA

Coral Ultramarino de Lisboa, 1970/71 – Lisboa e Guiné

Sérgio Godinho – “Pano Crú” – Coros, 1978

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PINTURA

Prémio de Revelação em Pintura no XI Salão da Primavera da Junta de Turismo da Costa do Sol, em 1971.

Participação no XII Salão da Primavera em 1972.

Exposição “Contrato a uma Lua”, 2004

Exposição colectiva na Galeria 9Arte, 2006

OUTRAS EXPERIÊNCIAS

1ª Comissão Directiva da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa – 1974/75, pelo Curso de Escultura, Estudantes

Dança Jazz com Chris Pagés – Paris e Lisboa – colaboração do ISEF e da SEC. 1977

Diploma em Sensory Evaluation Analisys, pelo Centro de Formação do London Coffee Information Centre.

University of Cambridge Proficiency Certificate in English.

Três anos de ensino de Inglês, público e privado. 1990, 1991, 1992.

Participação no Projecto “Olharapos” e na “Iluminação a Fogo” do espectáculo “A Peregrinação” para a Expo 98.

Apresentou o livro “O rapaz que queria ser como o bambú“, de Rosa Lapinha, FNAC/2003.

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Com “A Barraca” em Moçambique, representando “ Preto no Branco”, 1981

Última entrada – Abril 2010

Medidas, camisa 43 casaco 54 calça 46/44 sapatos 44 cabeça 60

Alt. 1.84

António Cara D’Anjo – Quadros 2010

Publicado: fevereiro 24, 2011 em Art
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Da Estrela a Arnhem em Quinze Horas

Publicado: fevereiro 23, 2011 em TRIPS
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quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

15:36

Logo pela manhã levantei-me de rompante com o toque do despertador às cinco horas. O táxi chegaria às cinco e meia. Tomei duche, fechei as torneiras, o gás, vesti-me, fechei a mala de mão e as portadas interiores. Tranquei a casa e ainda trago umas coisas da casa de banho para pôr na mala quando o taxista me bate à porta. Pediu desculpa mas era só para avisar que estava ali de motor desligado pelos vizinhos.

Coloquei a bagagem na rua e fechei a porta. Cinco e trinta e cinco e o voo seria às oito e dez. Muito tempo.

À chegada ao Aeroporto a confusão era imensa e ambos reparámos nisso. Estranho para aquela hora da manhã.

Entrei no aeroporto e o check-in estava a abarrotar assim como os balcões de atendimento das companhias aéreas.

Vendo tanto movimento saí dali rapidamente directo ao check-in onde costumo ser o primeiro ou segundo a chegar.

Já!! Também cheio? Podem ser os voos de Natal…

É melhor ir para o controle e depois vou tomar o pequeno almoço no Harrods.

Passei o controle, não sem me verem o saco outra vez por causa dos pastéis de nata que tinha levado comigo com certeza.

Vesti-me e subi a escada que dá para o átrio superior, das lojas e dos cafés.

Fiz tempo para embarcar e um pouco antes estava lá. Era um sítio diferente mesmo atrás do café.

Sentei-me na primeira fila e já tinha mandado um SMS à Isabel de bom dia.

Observava de frente o balcão de embarque daquela posição privilegiada com todos os preparativos e walkie-talkies a funcionar com os telefones internos.

O embarque tardava a vir. Algumas pessoas perguntaram e não havia licença para voar ainda… Pouco depois mudou a hora de embarque no painel. Seria às dez horas. Havia um problema de logística. Vários voos começaram a ser cancelados.

Ainda partiram alguns mas de resto começou a ficar tudo em terra. Aí começou a falar-se de tráfego aéreo em Espanha, que ninguém passava, pela greve dos controladores aéreos.

Oh não! No meio de tantos cancelamentos eu perguntei se podia ir no voo da tarde, mas não haveria voos da tarde, nem da noite. O que se sabia era que aquele avião iria voltar ainda nesse dia para a base. Isso significa o meu.

Desde a véspera que havia a possibilidade de greve em Espanha e acabou por acontecer limitando todo o tráfego aéreo que por acordo passa por espaço deles.

Era preferível ir para Amesterdão e depois resolvia o que fazer com o resto do meu transporte. Deram-me uma lista de restaurantes e cafetarias onde podia comer uma refeição. Enquanto esperava pela refeição disseram-me de como não estavam preparados e sem stock. Almocei e voltei. Sentei-me de novo na primeira fila enquanto por todo o lado já via gente a dormir com a cabeça deitada em cima dos sacos estendidos nos bancos.

Esperei. Corriam-me pensamentos de dormir um pouco mas não consigo nunca quando em alerta.

Mudou a porta de embarque para a dezanove. Antes era a vinte. Mais agitação, apagou-se o monitor. Agora será a sorte, pensei.

Quando o painel reacendeu o meu voo estava para as 17.30H. Mandei outro SMS à Isabel a contar. Paciência…

Mal tinha pousado o telefone fala-me um amigo:

-Então a viagem foi boa?

-Tem sido óptima!… Ainda ca estou!…

-Ena pá!!.

-Então sempre era verdade e pensei que não fosse, isto está um caos.

-Tem estado a dar desde ontem nos noticiários.

-Mas eu não os vejo e vim sem saber. Nem cá me disseram… Acho que não sabiam bem o que ia passar-se e nem os restaurantes estavam preparados para uma invasão. Obrigado por falar. Eu vou hoje, só não sei é quando. Mas fomos bem tratados pelas companhias, almoçámos por conta deles… Agora está um pouco difícil de ouvir…Está a acontecer qualquer coisa. Vou ter que desligar para ver o que se passa, peço desculpa, eu depois digo algo. Obrigado se estiver a ouvir-me ainda…

Fui recebendo actualizações de informação que me permitiram perceber que Espanha separa a Europa em espaço aéreo e isso impede tanto voos de Norte como para Norte e um plano B pelo nosso espaço teria que ser negociado… Achei curioso.

Para quem tinha voos low-cost significava perder um dia e muitos pediram o dinheiro de volta. Outros pediram o dinheiro porque se fossem de carro a lugares onde tinham que estar à noite, Madrid por exemplo, chegariam lá mais depressa.

Mais um telefonema…

-Há reportagens de que o aeroporto de Lisboa está um caos e tu onde estás?

-No meio! Mas só posso esperar!

-Então mas só soubeste lá dentro?

-Só. Desde o check-in e ninguém disse nada… A não ser umas informações que vou sabendo aqui.

-Mas isto está a dar desde ontem…

-Olha vou aguentar e ver no que dá, porque lá ainda tenho que apanhar o comboio e está a nevar.

-Bem aquilo lá está um taró!! Brr!

-Que eu vou lá chegar hoje… Vou!

Entretanto tivemos que desligar para eu ouvir mais informações. As conversas variavam entre poder cancelar-se o voo porque em Espanha havia uma greve de controladores aéreos, parecia que estavam a fazer uma requisição civil ou fazer entrar a F.A.. A coisa estava grave e o Governo certamente muito pressionado.

Continuavam a apontar para as 17:30. Houve voos cancelados na placa segundo ouvi. Outros regressaram, também ouvi.

Um grupo de chineses do meu voo abriu os sacos de mão e junto a uma tomada foram fazer chá numa chaleira eléctrica. Pessoas aproximavam-se ou não conforme a língua ou línguas que uns e outros falavam, trocando impressões. É o preenchimento de faltas de comunicação nos lugares públicos em que cada um vai para o seu destino. O som dos avisos de cancelamentos e desculpas atropelava-se.

O que se passaria lá fora, em Espanha? E entretanto esperava-se.

Eu sabia que iria porque o avião voltava e se aquela era uma boa previsão eu partiria pelas seis da tarde. Esse cálculo aliviou-me.

Quando chegou a altura soube-se que o assunto estava resolvido em Espanha agora era só uma questão de pôr no ar todos os aviões progressivamente.

-Em que número do progressivo está o meu avião?

-Não muito. (com um sorriso).

-Não muito? OK! Muito obrigado!

Mais uma espera…

Será dentro de pouco tempo. Vai sair depois do avião que está na placa. E assim foi, desde as placas mais distantes mas foi.

Como sempre o pessoal da KLM é simpatiquíssimo. O que deveria ser a refeição da noite ainda era o pequeno almoço desse dia. Era esse o voo. Os outros tinham sido cancelados.

E por fim depois de ler toda a literatura de bordo cheguei a Amsterdão. Por esta hora já ia tudo muito calado. Como de costume aterrámos curvando a bombordo sobre o Mar do Norte para depois entrarmos longamente a estibordo até aterrar. Olhando os reflexos das luzes do avião percebia-se que nevava, o chão estava gelado. 15 minutos depois chegámos à doca. Vesti a roupa quente extra e dirigi-me para a cinta das malas deixando para trás um «Dank u well» à tripulação em despedida.

As malas levaram tempo a chegar. Mais um compasso de espera. Já tinha ligado o telefone. Tentei ligar à Isabel. Nada. Chegou a mala, peguei-a e saí a caminho da bilheteira do comboio. A temperatura no átrio estava boa e quando dei por mim estava perto do motor a jacto de decoração do corredor das lojas. Tinha-me enganado. Voltei rapidamente e nesse instante foi a Isabel que me telefonou. já havia rede. Disse-lhe que me tinha enganado no caminho e enquanto caminhava a passos largos ela deu-me os horários e destino dos comboios que estava a ver na net. Até já!

Corri para a bilheteira e pedi o bilhete:

I’d like a one-way tiket to Arnhem please! Paguei e ela deu-me o bilhete indicando com o dedo:

-Hier, spoor dri! Go quick! There!

-Ok Thanks! Meti-me no There desci as escadas e fui parar à linha 2, ao contrário. Subi a correr e mudei para a três.

-Uf. Já cá estou! Apercebi-me de que havia problemas com os comboios e os locais davam sinais disso.

Mal tinha pousado a mala, chega um tipo ao pé de mim a perguntar se eu falava Inglês. Sim, e em que podia ajudar, mas de repente ele parecia português e eu disse-lhe o que o retraíu para um riso amarelo. Mas então puxa de um papel com um endereço bem para o interior e diz que quer ir para ali e se eu tivesse um telefone é que era bom… Eu gosto de ajudar mas achei estranho. Há telefones na gare. Disse que não tinha um telefone Holandês. Ele até parece que se assustou e foi falar para bem longe do outro lado.

Veio um comboio e tal como na bilheteira me tinham dito entrei e saí em Amesterdão Sul à espera do outro comboio que me levaria a Utrecht. Fui o único a sair. Na plataforma olhava os mapas, lia placas e tentava fazer-me ao caminho. Nevava. Ia telefonar quando recebo uma mensagem aflita «Onde estás?»

-Estou em Amsterdam-Zuid…

-A fazer o quê?

-Foi o que a senhora me disse…

-Quem?

-A da bilheteira.

-Isto está uma confusão com o sistema de controle dos comboios e a neve. Eu estou no computador e já vejo mas daí só podes ir para «uma cidade cujo nome não me lembro».

-Está bem, digo eu. Volta a ligar se faz favor. Olhei os mapas debaixo da neve com o barrete enfiado e a gozar aquela cor branca de farrapos a brilhar nas luzes. A Isabel voltou a ligar.

-Tens uma maneira de cá chegar mais rapidamente. Há um comboio que passa aí e vai quatro estações para Norte de onde tu estás podes ver no mapa e daí na plataforma 7 ou 8 terás um comboio directo que entretanto saiu de Leylistadt (?) é um directo e tu irás ao seu encontro e não tens muito tempo para passar de um para o outro.

E foi por internet que eu fui navegado até que em Wageningen eu liguei a dizer que já estava a meia hora. O comboio chegara tarde e ia chegar tarde. Uns três quartos de hora depois cheguei à estação. Saí do comboio e segui a multidão pela parte nova da estação, apreciando a arquitectura e engenharia. A Isabel gritava por mim do outro lado e virei-me. Lá estava ela. Arrastei a mala de rodas mesmo por cima da neve. Abraçámo-nos e ela já lá estava havia meia hora. Tinha estado a falar com um amigo nosso que esperava também alguém.

Fomos para a saída dos estacionamentos temporários para o carro e mais dez minutos estaríamos em casa. Levou um pouco mais com o gelo e a neve.

E ao sair do carro como foi bom pisar a neve, escutar a surdez da neve, o silêncio.

António Cara d’Anjo