A Idade Média de Fato e Gravata

Publicado: setembro 28, 2011 em THOUGHTS

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Caiu o Império Romano e das cinzas na Roma Incendiada por um louco nasceu um Mundo confuso, tribal e intelectualmente pobre no dito Ocidente em que o conhecimento era apanágio dos que já o possuíam e de uma elite de copistas que reinventaram o livro da «ordem e dos princípios» deixando queimar a riqueza da Biblioteca de Alexandria e ignorar o conhecimento do lado oposto do Mundo.

Sabemos que no dito Oriente existia um astronómico conhecimento científico e matemático. Esse mundo caiu sem que se pudesse ter imposto como um Mundo a ter em conta, afogado por Tsunamis ou Antonius.

Os primeiros orgulhos Europeus começaram a fundar-se nas pessoas dos senhores tribais e depois feudais, dos miseráveis e dos guerreiros que tinham que contribuir para a sua existência. Se a guerra e a bravura eram a glória, ao que trabalhava a terra não era merecido o devido respeito, como também aos ofícios. Perdura até hoje, ou somos assim?

Os ataques, as pestes, as fomes, foram o quotidiano do medo inquisitorial. Hoje continuamos, de outra maneira, dentro do mesmo modo. Aproximam-se cinzas de um mundo que já foi, podemos ainda pensar para nós, e aguardamos a próxima Idade das Trevas, mas desta vez, respeitosamente, a vê-los de gravata, esquecendo-nos que, quando cairmos, caímos todos. Eles também, e temam desta vez o povo.

António Cara D’Anjo

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By The Rijn

Publicado: agosto 13, 2011 em Art, PHOTOS, TRIPS
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Desenhos e fotos de António Cara D’Anjo

Muito Antes Do FMI

Publicado: agosto 12, 2011 em THOUGHTS
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A história tem-nos apontado caminhos que deveriam ser de bem-estar, com uma economia de divisão de riqueza próspera, uma cultura e educação em desenvolvimento e um País aprazível para vivermos, como esperávamos quando fizemos a nossa última revolução, e depois quando nos juntámos ao Mercado Comum Europeu, mais tarde União Europeia. Tínhamos todas as condições para isso. Mesmo quando nas situações mais adversas lutávamos para pagar empréstimos enquanto país, tínhamos margem para o desenvolvimento. Havia dois caminhos.

Escolhemos o caminho mais fácil, o de não plantar o que comemos, em todos os sentidos, o de receber fortunas para não produzir, o de nem sequer no turismo, na arquitectura e no visual do nosso país, nos equipamentos básicos, nas escolas, na economia da família, conseguirmos criar uma identificação com o que poderia ser a visão de um Portugal com um futuro. Escolhemos concentrar-nos nas grandes cidades e não dar uma hipótese ao interior, e preferimos habitar em casas sem planeamento. Continuámos a ser chantageados por funcionários de diversos departamentos para licenciamentos legais em troca de umas notas por baixo da mesa. Confundimos a nova república com a velha.

A mesma história tem provado que nem sempre, ou mesmo nunca, tivemos governantes à altura de desempenhar os cargos para os quais nós próprios os elegemos, abrindo um fosso que será dificilmente preenchido ao chegar a uma situação extrema. A televisão espalhou-se e com ela a imagem; e como a imagem é deslumbrante!… Como é importante ser eleito pela imagem. Claro que não é coisa nova, pois se se aplicava já no Estado Novo com as «conversas em família», a questão só tinha que mudar de ritmo, ao exemplo americano. Deslocou-se o debate para a preguiça do sofá. E que bem-falantes nos pareciam os candidatos. Assim, eram eleitos, com fraca apreciação de conteúdo ou conhecimento local porque isso passava a ser secundário, a imagem sim, como o dinheiro. A capacidade de gerar campanhas dispendiosíssimas também nos influenciava. Afinal nunca ligámos tanto a questões de humildade.

Hoje olhamos para as instituições do País com desdém porque esse mesmo poder devia ter sido nosso. Confundimos poder com dinheiro, essa é uma característica do nosso povo, a de ajoelhar perante o dinheiro. Nunca, e aqui não me deterei a apontar o dedo, pensámos que os livros e as artes nos poderiam trazer riqueza. Era a muito longo prazo e sem juros que se vissem. Nunca soubemos ver a clareza da função da educação, da cultura e depois o dinheiro. Esse foi no entanto um dos segredos dos países que assistiram a um desenvolvimento mais elevado. Os invejados.

Também nunca soubemos escolher os nossos amigos e andámos mal acompanhados de rufiões que pensámos nos defenderiam das ameaças por eles mesmo criadas. Arruaceiros sem princípios.

Agora não estamos contentes mas também não sabemos dar resposta, nem o Presidente da República se manifesta, nem tem o direito de o fazer pelo seu passado conivente, e voltamos a palavras de esperança do além. Ai Sebastião que nos deixaste sem Dom…

Não há respeito por nada, não se quer que haja respeito por algo. Mas uma coisa move ainda o nosso respeito, o dinheiro. Aprendamos que temos que sair deste estado de coisas valorizando o que há para valorizar e sabendo deitar para o lado o que há para expurgar.

O medo apoderou-se de nós. Primeiro o medo de perder tudo. E depois o medo de sair de casa para a rua, os cafés, e falar contra. Relembrar que votamos em quem foi Primeiro-ministro e depois Presidente e teve um dos papéis mais negativos na nossa história recente. Saibamos apontar o dedo a quem deve tomar a responsabilidade. Aos sindicatos que não tiveram a visão de que nem sempre é tempo de protestar, de saber que há concorrência noutros países e para uma fábrica é tão fácil como estalar os dedos o facto de ir para outro país ou mandar fazer tudo fora, longe, do outro lado do mundo onde se trabalha a um dólar por dia que é menos do que a despesa de um criminoso aqui. E porque havemos de ter uma medida mundial em dólares? Porque havemos de ser eternamente subjugados quando o jogo do dinheiro deve passar pelo nosso próprio europeu. No princípio chamei a todos europeus, e a razão é mesmo a de que estamos a ser engolidos pelo dólar.

Ainda não reflectimos muito bem nas consequências da nossa falha enquanto cidadãos porque agora que todos estão revoltados, vamos fazer o quê além de protestar, deitando redutoramente as culpas para os outros? Vamos educar-nos em música, pintura, economia, no que estiver na moda, vamos continuar a ler revistas cor-de-rosa para serem mais leves e não darem muito que pensar ou vamos pegar em reflexões sérias? Vamos ser mais homens e mulheres ou vamos mais a manifestações de grupo só porque sim? Vamos à praia, ao futebol, ou vamos respeitar-nos e conversar como gente aprendendo com os nossos erros? Que televisão queremos? O que nos serve?

Vamos respeitar aquele que teve que ir servir a um café com um curso superior? Podemos nem respeitar o dito curso superior, mas respeitaremos o indivíduo, o ser?

E em quem vamos votar para ser o nosso representante perante os outros? Alguém descobriu algum que se destaque e não tenha partidos, mas ideias. Vamos todos para a abstenção porque estamos fartos e agora queremos mostrar que somos gente?

E o que fazemos com a distribuição de riqueza? A classe média está e estará em piores condições. O operariado deixa de existir porque nunca foi respeitado pela sociedade. Os ditos respeitados agora são ladrões. Chegámos a essa conclusão porque só agora percebemos que temos estado a ser roubados. Como vamos fazer agora para reverter essa situação?

Há sempre tempos em que é moda ser-se alguma coisa. Vamos deixar de fora as modas de ser de direito ou de economia ou de artes e vamos antes começar a pensar a que é que tudo isso nos tem levado. Vamos pensar se vale a pena ir para o Afeganistão atrás de quem criou o motivo para se lá ir. Vamos pensar que sentido faz comprar armas em vez de alimentos, alimentar ódios em vez de responsabilizar quem nos levou a acreditar nesses ódios.

E talvez ainda despedir todos os gestores milionários protagonistas de folhetins como se despede um funcionário dito colaborador. Precisamos de quem trabalhe. E precisamos de trabalho para todos, por justiça.

Vamos rever o que é uma meta de trabalho. Vamos rever o sistema. Vamos chegar à conclusão que não dá resultados para todos mas para alguns enfileirados que nem sequer acreditam no que o partido defende, mas é conveniente para arranjar trabalho. E vamos acabar com isto tudo e instituir um futuro sem que nos dêem a volta. Até lá talvez tenhamos que plantar a nossa alimentação e mostrar respeito por quem o faz. E talvez tenhamos que ensinar os nossos filhos a lição do respeito pela escola começando em casa, a responsabilidade pelos deveres, começando ao sair da porta para a rua.

Talvez possamos derrotar as máfias internas, talvez possamos não olhar por detrás do ombro com medo de ser espiados, talvez possamos não ter tantos oportunistas no nosso meio.

Talvez até possamos fazer com que a nossa distância do centro geográfico da Europa não seja tão dramática, para nos fazer chegar mantimentos ao mesmo preço do centro da Europa.

Não precisamos de um corredor em TGV através de Espanha, que só serve quem pode pagar o luxo, mas precisamos de não ter cidades sitiadas e portagens nas auto-estradas. Estamos cercados por todos os lados porque não há frota por mar. Minto. Há meio submarino. E submarinos não pescam. Armas não dão de comer.

António Cara d’Anjo

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António Cara D’Anjo

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Teria feito este ano 90 anos e passou os últimos seis da sua vida a odiar os azulejos da sala do lar.

Escrevo agora porque sim, porque só agora me apetece e porque só agora consigo.

Para quem? Para quem gostava dela e pelas suas amigas e também por aqueles que a conheceram e deixaram de saber dela.

IN MEMORIAM

António Cara D’Anjo–Quadros

Publicado: agosto 10, 2011 em Art
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A Cultura Sempre Morre Primeiro

Publicado: julho 2, 2011 em Culture

Para que nos serve a cultura se é mais fácil pegar numa pedra e partir uma montra para comer?

Esta é a atitude recorrente em relação à cultura. O parente pobre de um corpo economicamente doente no mundo dito ocidental e civilizado.

Para que nos serve a educação se no fim nos dão um canudo na mesma e o trabalho depende do familiar bem colocado ou amigo a quem se fica a dever um favor ou ainda do partido a que se escolhe pertencer por conveniência futura?

Para quê qualquer coisa se o que vale é dinheiro?

É melhor emigrar? Sim mas há desvantagens. Os franceses não gostam de nós, os alemães também não. Diz Merkel que os povos do Sul da Europa não trabalham. Será que se refere a Barroso? E vendem-nos submarinos avariados? Será que foram feitos por portugueses ou por alemães?

Em tempos de miséria nunca roubámos nem cemitérios nem sinos de igrejas nem o vizinho mas comemos pão e sardinha. Hoje, os sobreviventes serão os que tiveram histórias passadas de boca em boca em família.

Depois da Segunda Guerra assistiu-se a um declínio do movimento cultural até ao Maio de 68. Os anos 70 foram criativos. Socialmente tudo melhorou com a queda dos últimos ditadores europeus e nos anos 80 descobrimos uma geração nova, os yuppies (young upperly mobile professionals) que eram uns rapazinhos bem vestidos de Armani que gostavam de fazer muito dinheiro e rapidamente com jogos de bolsa. O seu interesse pela cultura não era mais do que eventualmente comprar um quadro para depois vender a ganhar. Tornaram-se nos novos ditadores com sobrenomes ligados por hífen e uma apetência voraz por dinheiro. Havia pilhagem para as harpias. Foi o regresso ao crescimento das fortunas em detrimento de mineiros, estaleiros, agricultura. A banca atacava liberalmente que foi uma palavra que sempre convenceu as pessoas. Liberal é bom. Tomem lá com o capitalismo liberal. E a cultura? Esteticamente virou.

Voltando ao assunto, se hoje se interrogarem sobre um símbolo para Portugal, o que pensarão? Os mais velhos as quinas, a geração de 68, o Galo de Barcelos, os mais novos uma faixa verde com uma vermelha… Conjecturas que me levam a pensar num símbolo para uma marca de Cultura Identitária Portuguesa que sirva para marcar tudo o que produzimos e exportamos.

Esta é a cultura ou marca identitária perante o exterior e também perante o comércio interno no sentido do incentivo ao consumo do que é produzido por nós. E temos que melhorar muito a avaliação dos pequenos produtores em contraste com o favorecimento dos grandes.

Mas afinal o que é cultura? É saber de cor Camões, conhecer escrita antiga, história, geografia, e tudo o que nos ensinam? Não é só.

Cultura é saber fazer com toda a informação que temos uma linha de pensamento que seja uma marca identitária geral que seja mais importante que tudo o que é material e que seja a cabeça de uma forma de ser de um povo. É a base para tudo. Ser culto é ser mais elevado. É uma missão maior do que para muitos a pregação.

Quantas crianças aprendem música em Portugal? Quantas crianças visitam museus  ou locais de interesse. Quantos desempregados que gostariam de trabalhar na cultura veem a sua vida sem incentivo quando podiam estar a trabalhar num núcleo museológico? E quantos podiam investigar em troca do subsídio de desemprego ou da reinserção social. Talvez o país deixasse de ser tão preconceituoso.

Trate-se a cultura com respeito e talvez os nossos netos venham a ter uma identidade, seja como país ou como federação de estados, mas que aí saibam quem são e talvez não sejam tão evidentemente manobráveis por serem incultos ou aculturados.