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By The Rijn

Publicado: agosto 13, 2011 em Art, PHOTOS, TRIPS
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Desenhos e fotos de António Cara D’Anjo

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António Cara D’Anjo

Da Estrela a Arnhem em Quinze Horas

Publicado: fevereiro 23, 2011 em TRIPS
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quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

15:36

Logo pela manhã levantei-me de rompante com o toque do despertador às cinco horas. O táxi chegaria às cinco e meia. Tomei duche, fechei as torneiras, o gás, vesti-me, fechei a mala de mão e as portadas interiores. Tranquei a casa e ainda trago umas coisas da casa de banho para pôr na mala quando o taxista me bate à porta. Pediu desculpa mas era só para avisar que estava ali de motor desligado pelos vizinhos.

Coloquei a bagagem na rua e fechei a porta. Cinco e trinta e cinco e o voo seria às oito e dez. Muito tempo.

À chegada ao Aeroporto a confusão era imensa e ambos reparámos nisso. Estranho para aquela hora da manhã.

Entrei no aeroporto e o check-in estava a abarrotar assim como os balcões de atendimento das companhias aéreas.

Vendo tanto movimento saí dali rapidamente directo ao check-in onde costumo ser o primeiro ou segundo a chegar.

Já!! Também cheio? Podem ser os voos de Natal…

É melhor ir para o controle e depois vou tomar o pequeno almoço no Harrods.

Passei o controle, não sem me verem o saco outra vez por causa dos pastéis de nata que tinha levado comigo com certeza.

Vesti-me e subi a escada que dá para o átrio superior, das lojas e dos cafés.

Fiz tempo para embarcar e um pouco antes estava lá. Era um sítio diferente mesmo atrás do café.

Sentei-me na primeira fila e já tinha mandado um SMS à Isabel de bom dia.

Observava de frente o balcão de embarque daquela posição privilegiada com todos os preparativos e walkie-talkies a funcionar com os telefones internos.

O embarque tardava a vir. Algumas pessoas perguntaram e não havia licença para voar ainda… Pouco depois mudou a hora de embarque no painel. Seria às dez horas. Havia um problema de logística. Vários voos começaram a ser cancelados.

Ainda partiram alguns mas de resto começou a ficar tudo em terra. Aí começou a falar-se de tráfego aéreo em Espanha, que ninguém passava, pela greve dos controladores aéreos.

Oh não! No meio de tantos cancelamentos eu perguntei se podia ir no voo da tarde, mas não haveria voos da tarde, nem da noite. O que se sabia era que aquele avião iria voltar ainda nesse dia para a base. Isso significa o meu.

Desde a véspera que havia a possibilidade de greve em Espanha e acabou por acontecer limitando todo o tráfego aéreo que por acordo passa por espaço deles.

Era preferível ir para Amesterdão e depois resolvia o que fazer com o resto do meu transporte. Deram-me uma lista de restaurantes e cafetarias onde podia comer uma refeição. Enquanto esperava pela refeição disseram-me de como não estavam preparados e sem stock. Almocei e voltei. Sentei-me de novo na primeira fila enquanto por todo o lado já via gente a dormir com a cabeça deitada em cima dos sacos estendidos nos bancos.

Esperei. Corriam-me pensamentos de dormir um pouco mas não consigo nunca quando em alerta.

Mudou a porta de embarque para a dezanove. Antes era a vinte. Mais agitação, apagou-se o monitor. Agora será a sorte, pensei.

Quando o painel reacendeu o meu voo estava para as 17.30H. Mandei outro SMS à Isabel a contar. Paciência…

Mal tinha pousado o telefone fala-me um amigo:

-Então a viagem foi boa?

-Tem sido óptima!… Ainda ca estou!…

-Ena pá!!.

-Então sempre era verdade e pensei que não fosse, isto está um caos.

-Tem estado a dar desde ontem nos noticiários.

-Mas eu não os vejo e vim sem saber. Nem cá me disseram… Acho que não sabiam bem o que ia passar-se e nem os restaurantes estavam preparados para uma invasão. Obrigado por falar. Eu vou hoje, só não sei é quando. Mas fomos bem tratados pelas companhias, almoçámos por conta deles… Agora está um pouco difícil de ouvir…Está a acontecer qualquer coisa. Vou ter que desligar para ver o que se passa, peço desculpa, eu depois digo algo. Obrigado se estiver a ouvir-me ainda…

Fui recebendo actualizações de informação que me permitiram perceber que Espanha separa a Europa em espaço aéreo e isso impede tanto voos de Norte como para Norte e um plano B pelo nosso espaço teria que ser negociado… Achei curioso.

Para quem tinha voos low-cost significava perder um dia e muitos pediram o dinheiro de volta. Outros pediram o dinheiro porque se fossem de carro a lugares onde tinham que estar à noite, Madrid por exemplo, chegariam lá mais depressa.

Mais um telefonema…

-Há reportagens de que o aeroporto de Lisboa está um caos e tu onde estás?

-No meio! Mas só posso esperar!

-Então mas só soubeste lá dentro?

-Só. Desde o check-in e ninguém disse nada… A não ser umas informações que vou sabendo aqui.

-Mas isto está a dar desde ontem…

-Olha vou aguentar e ver no que dá, porque lá ainda tenho que apanhar o comboio e está a nevar.

-Bem aquilo lá está um taró!! Brr!

-Que eu vou lá chegar hoje… Vou!

Entretanto tivemos que desligar para eu ouvir mais informações. As conversas variavam entre poder cancelar-se o voo porque em Espanha havia uma greve de controladores aéreos, parecia que estavam a fazer uma requisição civil ou fazer entrar a F.A.. A coisa estava grave e o Governo certamente muito pressionado.

Continuavam a apontar para as 17:30. Houve voos cancelados na placa segundo ouvi. Outros regressaram, também ouvi.

Um grupo de chineses do meu voo abriu os sacos de mão e junto a uma tomada foram fazer chá numa chaleira eléctrica. Pessoas aproximavam-se ou não conforme a língua ou línguas que uns e outros falavam, trocando impressões. É o preenchimento de faltas de comunicação nos lugares públicos em que cada um vai para o seu destino. O som dos avisos de cancelamentos e desculpas atropelava-se.

O que se passaria lá fora, em Espanha? E entretanto esperava-se.

Eu sabia que iria porque o avião voltava e se aquela era uma boa previsão eu partiria pelas seis da tarde. Esse cálculo aliviou-me.

Quando chegou a altura soube-se que o assunto estava resolvido em Espanha agora era só uma questão de pôr no ar todos os aviões progressivamente.

-Em que número do progressivo está o meu avião?

-Não muito. (com um sorriso).

-Não muito? OK! Muito obrigado!

Mais uma espera…

Será dentro de pouco tempo. Vai sair depois do avião que está na placa. E assim foi, desde as placas mais distantes mas foi.

Como sempre o pessoal da KLM é simpatiquíssimo. O que deveria ser a refeição da noite ainda era o pequeno almoço desse dia. Era esse o voo. Os outros tinham sido cancelados.

E por fim depois de ler toda a literatura de bordo cheguei a Amsterdão. Por esta hora já ia tudo muito calado. Como de costume aterrámos curvando a bombordo sobre o Mar do Norte para depois entrarmos longamente a estibordo até aterrar. Olhando os reflexos das luzes do avião percebia-se que nevava, o chão estava gelado. 15 minutos depois chegámos à doca. Vesti a roupa quente extra e dirigi-me para a cinta das malas deixando para trás um «Dank u well» à tripulação em despedida.

As malas levaram tempo a chegar. Mais um compasso de espera. Já tinha ligado o telefone. Tentei ligar à Isabel. Nada. Chegou a mala, peguei-a e saí a caminho da bilheteira do comboio. A temperatura no átrio estava boa e quando dei por mim estava perto do motor a jacto de decoração do corredor das lojas. Tinha-me enganado. Voltei rapidamente e nesse instante foi a Isabel que me telefonou. já havia rede. Disse-lhe que me tinha enganado no caminho e enquanto caminhava a passos largos ela deu-me os horários e destino dos comboios que estava a ver na net. Até já!

Corri para a bilheteira e pedi o bilhete:

I’d like a one-way tiket to Arnhem please! Paguei e ela deu-me o bilhete indicando com o dedo:

-Hier, spoor dri! Go quick! There!

-Ok Thanks! Meti-me no There desci as escadas e fui parar à linha 2, ao contrário. Subi a correr e mudei para a três.

-Uf. Já cá estou! Apercebi-me de que havia problemas com os comboios e os locais davam sinais disso.

Mal tinha pousado a mala, chega um tipo ao pé de mim a perguntar se eu falava Inglês. Sim, e em que podia ajudar, mas de repente ele parecia português e eu disse-lhe o que o retraíu para um riso amarelo. Mas então puxa de um papel com um endereço bem para o interior e diz que quer ir para ali e se eu tivesse um telefone é que era bom… Eu gosto de ajudar mas achei estranho. Há telefones na gare. Disse que não tinha um telefone Holandês. Ele até parece que se assustou e foi falar para bem longe do outro lado.

Veio um comboio e tal como na bilheteira me tinham dito entrei e saí em Amesterdão Sul à espera do outro comboio que me levaria a Utrecht. Fui o único a sair. Na plataforma olhava os mapas, lia placas e tentava fazer-me ao caminho. Nevava. Ia telefonar quando recebo uma mensagem aflita «Onde estás?»

-Estou em Amsterdam-Zuid…

-A fazer o quê?

-Foi o que a senhora me disse…

-Quem?

-A da bilheteira.

-Isto está uma confusão com o sistema de controle dos comboios e a neve. Eu estou no computador e já vejo mas daí só podes ir para «uma cidade cujo nome não me lembro».

-Está bem, digo eu. Volta a ligar se faz favor. Olhei os mapas debaixo da neve com o barrete enfiado e a gozar aquela cor branca de farrapos a brilhar nas luzes. A Isabel voltou a ligar.

-Tens uma maneira de cá chegar mais rapidamente. Há um comboio que passa aí e vai quatro estações para Norte de onde tu estás podes ver no mapa e daí na plataforma 7 ou 8 terás um comboio directo que entretanto saiu de Leylistadt (?) é um directo e tu irás ao seu encontro e não tens muito tempo para passar de um para o outro.

E foi por internet que eu fui navegado até que em Wageningen eu liguei a dizer que já estava a meia hora. O comboio chegara tarde e ia chegar tarde. Uns três quartos de hora depois cheguei à estação. Saí do comboio e segui a multidão pela parte nova da estação, apreciando a arquitectura e engenharia. A Isabel gritava por mim do outro lado e virei-me. Lá estava ela. Arrastei a mala de rodas mesmo por cima da neve. Abraçámo-nos e ela já lá estava havia meia hora. Tinha estado a falar com um amigo nosso que esperava também alguém.

Fomos para a saída dos estacionamentos temporários para o carro e mais dez minutos estaríamos em casa. Levou um pouco mais com o gelo e a neve.

E ao sair do carro como foi bom pisar a neve, escutar a surdez da neve, o silêncio.

António Cara d’Anjo