Muito Antes Do FMI

Publicado: agosto 12, 2011 em THOUGHTS
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A história tem-nos apontado caminhos que deveriam ser de bem-estar, com uma economia de divisão de riqueza próspera, uma cultura e educação em desenvolvimento e um País aprazível para vivermos, como esperávamos quando fizemos a nossa última revolução, e depois quando nos juntámos ao Mercado Comum Europeu, mais tarde União Europeia. Tínhamos todas as condições para isso. Mesmo quando nas situações mais adversas lutávamos para pagar empréstimos enquanto país, tínhamos margem para o desenvolvimento. Havia dois caminhos.

Escolhemos o caminho mais fácil, o de não plantar o que comemos, em todos os sentidos, o de receber fortunas para não produzir, o de nem sequer no turismo, na arquitectura e no visual do nosso país, nos equipamentos básicos, nas escolas, na economia da família, conseguirmos criar uma identificação com o que poderia ser a visão de um Portugal com um futuro. Escolhemos concentrar-nos nas grandes cidades e não dar uma hipótese ao interior, e preferimos habitar em casas sem planeamento. Continuámos a ser chantageados por funcionários de diversos departamentos para licenciamentos legais em troca de umas notas por baixo da mesa. Confundimos a nova república com a velha.

A mesma história tem provado que nem sempre, ou mesmo nunca, tivemos governantes à altura de desempenhar os cargos para os quais nós próprios os elegemos, abrindo um fosso que será dificilmente preenchido ao chegar a uma situação extrema. A televisão espalhou-se e com ela a imagem; e como a imagem é deslumbrante!… Como é importante ser eleito pela imagem. Claro que não é coisa nova, pois se se aplicava já no Estado Novo com as «conversas em família», a questão só tinha que mudar de ritmo, ao exemplo americano. Deslocou-se o debate para a preguiça do sofá. E que bem-falantes nos pareciam os candidatos. Assim, eram eleitos, com fraca apreciação de conteúdo ou conhecimento local porque isso passava a ser secundário, a imagem sim, como o dinheiro. A capacidade de gerar campanhas dispendiosíssimas também nos influenciava. Afinal nunca ligámos tanto a questões de humildade.

Hoje olhamos para as instituições do País com desdém porque esse mesmo poder devia ter sido nosso. Confundimos poder com dinheiro, essa é uma característica do nosso povo, a de ajoelhar perante o dinheiro. Nunca, e aqui não me deterei a apontar o dedo, pensámos que os livros e as artes nos poderiam trazer riqueza. Era a muito longo prazo e sem juros que se vissem. Nunca soubemos ver a clareza da função da educação, da cultura e depois o dinheiro. Esse foi no entanto um dos segredos dos países que assistiram a um desenvolvimento mais elevado. Os invejados.

Também nunca soubemos escolher os nossos amigos e andámos mal acompanhados de rufiões que pensámos nos defenderiam das ameaças por eles mesmo criadas. Arruaceiros sem princípios.

Agora não estamos contentes mas também não sabemos dar resposta, nem o Presidente da República se manifesta, nem tem o direito de o fazer pelo seu passado conivente, e voltamos a palavras de esperança do além. Ai Sebastião que nos deixaste sem Dom…

Não há respeito por nada, não se quer que haja respeito por algo. Mas uma coisa move ainda o nosso respeito, o dinheiro. Aprendamos que temos que sair deste estado de coisas valorizando o que há para valorizar e sabendo deitar para o lado o que há para expurgar.

O medo apoderou-se de nós. Primeiro o medo de perder tudo. E depois o medo de sair de casa para a rua, os cafés, e falar contra. Relembrar que votamos em quem foi Primeiro-ministro e depois Presidente e teve um dos papéis mais negativos na nossa história recente. Saibamos apontar o dedo a quem deve tomar a responsabilidade. Aos sindicatos que não tiveram a visão de que nem sempre é tempo de protestar, de saber que há concorrência noutros países e para uma fábrica é tão fácil como estalar os dedos o facto de ir para outro país ou mandar fazer tudo fora, longe, do outro lado do mundo onde se trabalha a um dólar por dia que é menos do que a despesa de um criminoso aqui. E porque havemos de ter uma medida mundial em dólares? Porque havemos de ser eternamente subjugados quando o jogo do dinheiro deve passar pelo nosso próprio europeu. No princípio chamei a todos europeus, e a razão é mesmo a de que estamos a ser engolidos pelo dólar.

Ainda não reflectimos muito bem nas consequências da nossa falha enquanto cidadãos porque agora que todos estão revoltados, vamos fazer o quê além de protestar, deitando redutoramente as culpas para os outros? Vamos educar-nos em música, pintura, economia, no que estiver na moda, vamos continuar a ler revistas cor-de-rosa para serem mais leves e não darem muito que pensar ou vamos pegar em reflexões sérias? Vamos ser mais homens e mulheres ou vamos mais a manifestações de grupo só porque sim? Vamos à praia, ao futebol, ou vamos respeitar-nos e conversar como gente aprendendo com os nossos erros? Que televisão queremos? O que nos serve?

Vamos respeitar aquele que teve que ir servir a um café com um curso superior? Podemos nem respeitar o dito curso superior, mas respeitaremos o indivíduo, o ser?

E em quem vamos votar para ser o nosso representante perante os outros? Alguém descobriu algum que se destaque e não tenha partidos, mas ideias. Vamos todos para a abstenção porque estamos fartos e agora queremos mostrar que somos gente?

E o que fazemos com a distribuição de riqueza? A classe média está e estará em piores condições. O operariado deixa de existir porque nunca foi respeitado pela sociedade. Os ditos respeitados agora são ladrões. Chegámos a essa conclusão porque só agora percebemos que temos estado a ser roubados. Como vamos fazer agora para reverter essa situação?

Há sempre tempos em que é moda ser-se alguma coisa. Vamos deixar de fora as modas de ser de direito ou de economia ou de artes e vamos antes começar a pensar a que é que tudo isso nos tem levado. Vamos pensar se vale a pena ir para o Afeganistão atrás de quem criou o motivo para se lá ir. Vamos pensar que sentido faz comprar armas em vez de alimentos, alimentar ódios em vez de responsabilizar quem nos levou a acreditar nesses ódios.

E talvez ainda despedir todos os gestores milionários protagonistas de folhetins como se despede um funcionário dito colaborador. Precisamos de quem trabalhe. E precisamos de trabalho para todos, por justiça.

Vamos rever o que é uma meta de trabalho. Vamos rever o sistema. Vamos chegar à conclusão que não dá resultados para todos mas para alguns enfileirados que nem sequer acreditam no que o partido defende, mas é conveniente para arranjar trabalho. E vamos acabar com isto tudo e instituir um futuro sem que nos dêem a volta. Até lá talvez tenhamos que plantar a nossa alimentação e mostrar respeito por quem o faz. E talvez tenhamos que ensinar os nossos filhos a lição do respeito pela escola começando em casa, a responsabilidade pelos deveres, começando ao sair da porta para a rua.

Talvez possamos derrotar as máfias internas, talvez possamos não olhar por detrás do ombro com medo de ser espiados, talvez possamos não ter tantos oportunistas no nosso meio.

Talvez até possamos fazer com que a nossa distância do centro geográfico da Europa não seja tão dramática, para nos fazer chegar mantimentos ao mesmo preço do centro da Europa.

Não precisamos de um corredor em TGV através de Espanha, que só serve quem pode pagar o luxo, mas precisamos de não ter cidades sitiadas e portagens nas auto-estradas. Estamos cercados por todos os lados porque não há frota por mar. Minto. Há meio submarino. E submarinos não pescam. Armas não dão de comer.

António Cara d’Anjo

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