O Presidente de Todos os (P)residentes

Publicado: fevereiro 22, 2011 em ALL, THOUGHTS
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Devemos ter um novo record para o Guiness.

Já não há doutores, há Presidentes, que é uma boa forma de contornar o facto de não se ser qualificado para ser ouvido e já de si acarreta o poder de pôr e dispor dos subservientes.  É outra coisa ser chamado de «presidente», possui um grau de distância e muita reverência. No bairro onde moro, por construção e época, havia muitos quadros. Aquilo era um fartote de ouvir os senhores e senhoras a cruzarem-se na rua, eles tirando o chapéu e ao mesmo tempo largando uns «Oh, como está Vossa Excelência Senhor Engenheiro!», ou «Senhor Doutor». >>E o País chegou aqui com esta cultura. É certo que quando o meu pai foi estudar de Portalegre para Coimbra, nem que fosse no primeiro ano, já eram os «meninos», os «doutores». Eram tempos em que se usavam capas e batinas só para a Universidade Clássica e ainda não existiam outras equivalências que proporcionam o seu uso e abuso pelo menos às quintas-feiras.

Talvez fosse melhor dizer que morremos de desgoverno do governo do nada que temos pela companhia teatral de S.Bento, Assembleia e Palácio presidencial, pelo amontoado de presidentes, o da República, o do concelho geral e dos concelhos particulares, os presidentes de administrações, dos partidos, dos grupos parlamentares e sem ser parlamentares e todos os presidentes das juntas de freguesia, de mesa, e colectivos de Juízes, desde os dos tribunais a todos os que são chamados de presidente, mais os dos conselhos diretivos das escolas públicas e privadas e das associações de pais, de filhos, de enteados e amigos do que é ser presidente, mais os clubes de futebol. Há mais presidentes do que bandeiras, princípios, meios e fins.

Já não somos um país de doutores sem o serem porque são licenciados, somos um país de presidentes a quem só não se chama presidente se se estiver face a um Presidente que tenha mais um dente. E ouvir uma reunião de presidentes deve ser lindo, parece que estamos numa cimeira, ninguém se trata por senhor ou senhora.

Tornou-se uma matéria cultural que veio camuflar a ignorância, a falta de perspectiva de Cultura de um povo.

É evidente que pelo andar da carruagem, e por comparação com os dias em que Presidente só havia dois e tal, caminhamos para a existência de uma associação de presidentes que terá um presidente supremo e um vice-presidente.

É tão engraçado ter «vices». Onde há um presidente há um vice. Menos em Belém… E outros lugares vá…

Era tão bom que o acordo ortográfico regulamentasse a palavra «presidente». Porque se corre o risco de que o Chefe de Polícia seja tratado por doutor. E quem sabe onde acaba porque já existe a associação de polícia com um Presidente.

Era tão bom que fossemos cultos e não subservientes.

É que eu tive a boa fortuna de viajar, não só a trabalhar, mas a viver longos períodos, sendo que a viver eu estive fora desde a Guerra das Falklands ou Malvinas, até voltar em anos recentes para outras experiências mais para o centro da Europa, onde Cultura é considerada, tanto como quem a produz, sem necessidade de compadrios, e como tal as pessoas tratam-se pelo nome que têm e depois se pergunta o que faz e no seguimento da conversa pode falar-se de igual para igual sem sentir paternalismos e assim aprendi do ser humano, da cultura e mais, do Universo.

Deixo na nota final uma reflexão. Acabar com o culto do doutor, arquitecto ou engenheiro ajudar-nos-ia a ser mais Europa e País, não? E presidente?

António Cara D’Anjo

Fevereiro de 2011

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